domingo, 10 de abril de 2016

A difícil lição do desapego




Aprender o destemor da morte é aprender a enfrentar cada perigo e cada obstáculo com a coragem e a determinação devidas. É também aprender a difícil lição do desapego: saber que a cada dia um dia se conquista e um dia se perde. (Trecho do livro "Arqueologia dos Prazeres", de Fernando Santoro)

Perfil de Epicuro




ARQUEOLOGIA DOS PRAZERES - No livro em que faz uma reflexão sobre o modo como os antigos gregos lidavam com o prazer, o Professor Fernando Santoro dedica um capítulo inteiro a Epicuro. Com sua leitura atenta e perspicaz do que restou do pensamento de Epicuro, e também do que se disse sobre ele, o Professor Santoro construiu um saboroso perfil desse ilustre pensador grego. 

Arqueologia dos Prazeres é uma publicação da Editora Objetiva e pode ser adquirido AQUI.  Leia logo abaixo o capítulo que trata de Epicuro. 







Epicuro

Talvez a simplicidade seja devida apenas ao fato de que a tradição textual que nos restou de Epicuro se encontre sobretudo no gênero epistolar; mas é sempre reconfortante ver a filosofia falar com os dois pés no chão. De fato, o que temos da teoria de Epicuro sobre o prazer encontra-se principalmente numa carta dirigida a Meneceu. Uma carta que propõe uma terapia filosófica para realizar a vida feliz. A filosofia de Epicuro está toda voltada para a felicidade: tanto a Fisiologia, o seu estudo da natureza, quanto o Cânon, a sua teoria da linguagem e do conhecimento, estão a serviço da cura filosófica dos males  que travam o exercício de uma vida feliz. Tudo que não está efetivamente voltado para este fim é adiável e dispensável, Epicuro abomina a polimatia, a erudição sem propósito, a aprendizagem excessiva que percorre todas as áreas da cultura e da ciência antes de chegar aos saberes que realmente importam. Mas aqueles saberes que transformam a vida e a tornam feliz, esses são urgentes, porque não se deve adiar a felicidade: a vida é curta, eterna é somente a morte que chega rápido e sem pedir licença.


“Que ninguém, jovem, tarde a filosofar, nem, ficando idoso, se canse da filosofia. Pois nunca é cedo demais  nem tarde demais para cuidar da saúde da alma.” (Carta a Meneceu)


O epicurismo é antes de tudo uma apurada atenção aos fins e à medida. A simplicidade é decorrência dessa postura, a objetividade na realização da vida feliz, também. O estudo da natureza é claramente orientado por estes valores: o atomismo é a perspectiva naturalista que, com a menor quantidade de elementos e causas, mais exprime o movimento, o vir-a-ser, as transformações, diferenças e relações dos entes. Epicuro resume os princípios da sua Fisiologia também em uma carta, dirigida a Heródoto. O seu atomismo é inspirado de Demócrito, mas Epicuro acrescenta um elemento novo, que o vai separar ainda mais das concepções dos estóicos e de todo determinismo, naturalista ou de qualquer outra ordem,


Os átomos, em seu movimento no vazio, declinam, desviam-se de sua trajetória retilínea em ângulos mínimos imprevisíveis. Esse é o aspecto mais obscuro da física de Epicuro, não apenas pelo problema do movimento em si mesmo, mas também pelo fato de que é um ponto da teoria que nos chegou de modo acentuadamente indireto, não constando nem nas cartas transcritas por Diógenes Laércio nem em alguma outra citação direta. Mas, com toda a problematicidade, é sem dúvida o aspecto mais genial da Fisiologia. A marca de um pensamento que submete a teoria aos fenômenos, e também que os impregna de valores primordiais. Se a existência do homem pode ser livre, é que há na natureza mesma uma causa da liberdade.  O fado não determina tudo: pela teoria dos mínimos desvios o acaso retoma um poder fundamental  nos acontecimentos do mundo.  Pelo acaso, geram-se mundos diferentes, diferentes ordenações e relações entre os corpos; pelo acaso, diferentes corpos são gerados dos aglomerados de átomos; pelo acaso o acidente é possível, a falha, o inusitado e o extraordinário. Porém, mais genial ainda, não se trata de uma força esporádica, de um contratempo da natureza, algo que no mais das vezes não é assim, como supõe a teoria aristotélica do acidente. A declinação dos átomos é constitutiva do movimento natural; de todo movimento natural. O acaso não acontece por acaso, o acaso está presente em todo movimento; ainda que o seu grau de atuação seja mínimo. Ainda que pequeno, sempre há desvio.




“O clinamen ou declinação não tem nada a ver  com um movimento oblíquo que viria por acaso modificar  uma queda vertical. Ele está presente o tempo todo:  não é um movimento secundário, nem mesmo uma segunda determinação do movimento do átomo, que aconteceria em um momento qualquer, em um lugar qualquer.” (Gilles Deleuze)


Mesmo para explicar os desvios e o acaso, a teoria requisita apenas mais uma causa, totalmente compatível e integrada às demais características da enxuta e moderada teoria atomista. A Natureza de Epicuro é uma engrenagem simples e completa, que inclui nela mesma o princípio da diferenciação e da proliferação dos corpos e dos arranjos de corpos, os também múltiplos mundos. Uma teoria que só não abre mão de corresponder aos desafios postos pela compreensão dos próprios fenômenos, que nunca são ordenados em linha reta. A natureza não semeia as estrelas em xadrez.


A Canônica, o método de conhecimento, também é dotada de objetividade e comedimento. O conhecimento provém dos sentidos, porque na sensação são os próprios corpos que se manifestam para nós e em relação a nós (pròs henás), emanações de simulacros (phantasta) que provêm de outros corpos. Os dois extremos do sentido devem articular: de um lado o fenômeno, que sempre é tal como se mostra; no outro extremo o movimento dos átomos, invisíveis mais necessários para compreender com simplicidade o que se passa no mundo perceptível.  A extremidade fenomênica é limitada pela evidência, a extremidade atômica, pela coerência. Do momento que consigo coerência na explicação do que a mim se mostra isto é suficiente para o conhecimento.  E, sobretudo, o conhecimento está a serviço da vida feliz, sua finalidade e utilidade está justamente em examinar aqueles pensamentos e fantasias que perturbam a alma, trazer a verdade até o ponto em que ela nos predispõe à serenidade.  Este é também o limite de extensão do conhecimento desejável para o ser humano, e o seu valor: conhecimento para a vida. Por isso, Epicuro valoriza mais a prudência do que a própria filosofia. O que importa não é o conhecimento absoluto ou desinteressado. Importa aprender a viver, saber alcançar a felicidade, descobrir como melhor sentir prazer.


O prazer, a realização de uma vida feliz, é um afeto (pathos) que corresponde a uma plenitude, determinada principalmente de modo negativo. Ausência de dores no corpo, entre as quais se inclui todo tipo de carência, que Epicuro identifica como causa dos desejos naturais, desejos do que é conforme à nossa natureza, do que nos é congênito (symphyton). Primeiro, suprir as carências naturais e aplacar as dores, também naturais, do corpo. Em seguida, desafogar as perturbações, todos os pensamentos e opiniões que nos enganam e provocam aflições vãs. Essa plenitude que se dá quando estão supridas as carências do corpo e aliviados os estorvos da alma, Epicuro chama de imperturbabilidade (ataraxia).


O fato de que a determinação primeira da ataraxia seja duplamente negativa não significa que seja um estado de indiferença ou de apatia. Acompanha a imperturbabilidade um estado de prazer, o gozo da vida saudável, a alma livre para pensar a verdade e partilha-la com os amigos. Para alcançar o estado de ataraxia, Epicuro sugere uma terapia especial: a ingestão de fármaco, uma droga poderosa capaz de reverter tanto as dores do corpo quanto as angústias da alma. Esta droga poderosa é a própria filosofia. Como toda droga, é preciso saber muito bem administra-la, sobretudo, é importante não errar na dose.









Tetrafármaco

 Droga filosófica é composta de quatro antídotos contra os quatro principais venenos que produzem ou aumentam a dor no corpo e os pesares na alma, por isso é chamada de tetrafármaco.


“Consequentemente, quem consideras que seja melhor do que aquele que tem uma venerada opinião sobre os deuses; e passando por tudo se mantem destemido diante da morte; que refletiu sobre a meta da natureza e que, de um lado, o limite dos bens é simples de alcançar e fácil de obter, enquanto, dos males, ou é curto o tempo ou o sofrimento.”


O primeiro ingrediente é ministrado pela filosofia desde que ela surgiu, à medida que se insurgia contra os mitos dos poetas e as concepções correntes de idealização e imaginação dos deuses. Os homens tem dois tipos de acepção dos deuses, a primeira é a noção comum, a prenoção (prolepsis) que resulta de uma evidência. Esta define os deuses como viventes imortais e bem-aventurados. Nisto não incorrem em erro, porque nesta prenoção não dizemos dos deuses nem que existem nem como; a prenoção apenas abre o sentido de uma questão. Mas quando os homens vão dizer como os deuses existem e com que se parecem, costumam errar feio em suas falsas presunções (hypolépseis). Erram, porque em vez de buscar o que seja o melhor e mais digno, acabam imaginando os imortais à semelhança dos próprios homens, com vontades, paixões, preocupações, juízos e até desejos e vícios – diferem apenas no poder excedente  e na ausência da morte. Os homens projetam seus valores e ideais sobre as fantasias que produzem dos deuses de modo que não examinam o que seja realmente o melhor e mais venturoso e que com direito e dignidade cabe a uma concepção  veneranda do sagrado. Além de não respeitar  a verdade dos próprios deuses, tais presunções provocam angústias atrozes e até mesmo atitudes descabidas e violentas. O peso do olhar divino sobre as ações humanas faz com que se esteja o tempo todo preocupado em agradar ou não desagradar os deuses, enquanto não se examinam realmente a virtude e a excelência das próprias ações. Responsabilizamos os deuses pelo que nos vem de bom ou de ruim, como se estivessem muito preocupados em nos recompensar ou castigar. Ficamos apreensivos com as torturas medonhas do Tártaro e esperamos a sorte de alcançar as ilhas dos bem aventurados. E queremos dobrar os deuses a nossas vontades com preces, oferendas e sacrifícios. Com tudo isso, abrimos mão de exercer nossa liberdade na responsabilidade das decisões e das ações.


O estudo da natureza tem como primeira missão e objetivo alcançar a verdadeira constituição do mundo, dos seus corpos, dos seus viventes, e dos viventes que reputamos mais excelentes. A teoria atomista nos apresenta o cosmo em sua autonomia e autarquia, que contém todas as forças para mover-se e jogar o jogo do vir-a-ser e do ir-de-ser com simplicidade e graça, sem precisar de nenhum maestro a conduzir a grande  sinfonia do real. Neste grande jogo os homens podem participar e atuar com responsabilidade, com a assunção de atitudes e valores, não são títeres dos deuses ou joguetes de um destino. Balizam-se os sábios e prudentes pela boa condução da vida, pela fuga das dores e pela busca de uma existência saudável e serena no prazer.


Para Epicuro os deuses são realmente o que há de melhor e mais excelente, de modo que podem ser os êmulos de nossas ações. Mas este ideal divino de vida feliz se projeta sobre o homem mais nobre  não como um exercício arbitrário de desejo, poder e vontade despótica, mas como a máxima serenidade, a mais imperturbável ataraxia. Os deuses, mais do que qualquer um, são imperturbáveis por nossos feitos, seja para agradá-los, seja para afrontá-los. Os mais excelentes viventes tem como mais ninguém aquilo que Nietzsche chamou de “pathos da distância”. Não precisamos temer os deuses, nem nos pautar por servi-los. Os deuses absolutamente não precisam em nada de nós. Principalmente, não devemos entrar em disputas encarniçadas e violentas, propiciar dores e sofrimentos, sacrificar vidas humanas em seus nomes. Os deuses não estão nem aí para nós.


O primeiro antídoto visa curar-nos de nossas projeções transcendentes, dos falsos valores que elegemos para imitar e obedecer. Deve curar-nos das angústias do além. O segundo antídoto visa fazer nos aquiescer no limite do que somos, em nossa condição de viventes mortais. Perturba-nos demais o além, mas também perturba-nos a ideia, a certeza, de que a partir de determinado instante não haverá mais além. Depois do temor ao sobrenatural  dos deuses, nada perturba mais nossa alma do que o medo da morte. Assim, a segunda missão da fisiologia é compreender o sentido simples e verdadeiro da morte e da mortalidade.






Por que tememos a morte? Supomos que seja algum tipo de dor ou sofrimento. No entanto, a fisiologia da vida nos mostra que toda dor ou sofrimento só se dá como percepção de algum sentido. Ora, o morto não sente absolutamente nada, de modo que não tem como sentir dor. O morto não sente dor, mas o vivo que teme a morte sofre a antecipação dessa dor imaginária. Não é a morte que nos aflige, mas o temor da morte, essa antecipação de um sofrimento ilusório, que nunca poderá ser sentido, quando de fato aderir a hora.  Sofremos, portanto a dor de uma mentira. Sofremos por puro engano e ignorância, mas sofremos. Quando realmente aprendemos o sentido do vazio não como a falta mas como o acabamento e a planificação da vida, então não teremos o medo da morte. Mas a evidência dessa verdade não é alcançada por um raciocínio frio: entender por que razões a morte não é um sofrimento é razoavelmente fácil, difícil porém é alcançar a atitude deste entendimento e não sucumbir em vida ao temor da morte quando os fatos da vida nos desafiam.  O sábio e o prudente não é alguém  que pode  seguir coerentemente  a dedução de um raciocínio, mas aquele que efetivamente consegue pautar sua vida pelo que sua mente alcança com clareza no pensamento. Aprender o destemor da morte é aprender a enfrentar cada perigo e cada obstáculo com a coragem e a determinação devidas. É também aprender a difícil lição do desapego: saber que a cada dia um dia se conquista e um dia se perde.


O temor da morte ainda traz, além da própria angústia com o nada, outras conseqüências também portadoras de outras aflições e vaidades: a ambição desmedida e a ganância, a ânsia de glória. A segunda componente do tetrafármaco mostra-nos como todos os bens são passageiros e que a vida  também é uma passagem do nada para coisa nenhuma. Não temer a morte é aprender a morrer a cada dia, ganhar a única riqueza exclusiva dos mortais: a experiência da passagem do tempo. A passagem que cronicamente a tudo corroi é, sem o temor da morte, transfigurada em passagem prazerosa da intensidade e da vertigem de viver.


Bebamos e comamos, pois amanhã morremos.


O terceiro remédio é administrado à alma para que esta seja boa protetora do corpo, é ainda uma droga filosófica porque a temperança nos usos do corpo é em primeiro lugar o resultado de um saber. O saber que o homem prudente conquista de alcançar e conservar a medida. O terceiro elemento nos fala  da experiência de otimizar o prazer. A maior quantidade, a melhor qualidade, e o mais longo usufruto do prazer cabem ao que se torna o senhor da medida. Para este é simples alcançar e fácil de obter o prazer. Não porque este sábio seja cheio de recursos ou aparelhado de poderes como um tirano, mas porque aprendeu a sorver a máxima delícia do simples e com pouco. Aprendeu a encontrar o gozo na circunstância que o rodeia, no que a generosa natureza lhe estendeu por graça.  O frescor de uma água cristalina no riacho ou no banho de chuva, o calor acolhedor de uma manhã ensolarada, a fruta madura no pé, o mel colhido que recompensa o esforço. O prazer, Epicuro o cultiva no jardim. Os prazeres supérfluos são os mais difíceis e não são os melhores. Todavia os demais prazeres não são para desprezar ou repudiar, nenhum prazer é em si mesmo ruim, mas o homem prudente e conhecedor da medida sabe calcular se o esforço  despendido é proporcional ao prazer alcançado; sabe ir até onde o corpo é capaz de comprazer-se e sabe parar  quando vê se aproximar a dor; sabe ponderar os que hoje são prazeres, mas amanhã podem fazer sofrer. A medida do prazer, mas este é um afeto pelo qual podemos ser totalmente senhores e responsáveis. O prazer mais intenso, no entanto, sequer precisamos cuidar de sua medida, nunca este prazer é excessivo, e ele é o que está mais disponível e só depende mesmo  de nossa disposição e caráter: é prazer da convivência entre amigos. Se a convivência ainda é a que entretem a prazerosa atividade da filosofia, então somos realmente bem-aventurados e vivemos entre eles.


“mas viverás como um deus entre os homens. Pois em nada se parece com um vivente mortal o homem que vive entre bens imortais”.


O quadrado terapêutico se fecha com uma sabedoria controladora acerca do sofrimento. O sofrimento ou é curto no tempo, ou curto na intensidade.  Para a experiência da dor, ministra-se o antídodo da paciência. O concurso do tempo faz passar a dor; assim quando temos a ciência da passagem do tempo, podemos aprender a ausentar-nos da dor. A dor caiu sobre nós nesse momento? Abstraiamo-nos do momento. O nosso pensamento é capaz de adiantar fim da dor na esperança do alívio, e a suportarmos sem desespero, se temos fé de que ela vai passar. O tempo aqui é o grande remédio e saber que o tempo tudo leva é um conforto no momento da dor. Além da expectativa do alívio, também se pode abstrair o momento do sofrimento pela lembrança do prazer. Quando a dor sobrevém e não temos o que fazer para evita-la, o pensamento pode refugiar-se em uma memória prazerosa; e lembrar de um prazer é revive-lo um pouco. Mas se a dor é pungente demais, tenhamos essa convicção: a dor muito intensa é curta, ou porque recobramos a saúde e o prazer rapidamente, ou porque logo morremos e, sem sensação, a morte é alívio para a dor excessiva e sem expectativa de cura. Mas se, por outro lado, o sofrimento se torna longo e crônico, a natureza dos sentidos se encarrega de enfraquecer a sensação, até o ponto de nos acostumarmos ao que antes era doído, até que a dor de todo dia vira um despercebido ruído de fundo.  







quarta-feira, 30 de março de 2016

O filósofo do prazer



EPICURO

A ÉTICA DE EPICURO - No primeiro semestre de 2016 o Professor Fernando Santoro vai se dedicar ao pensamento e ideias de Epicuro, na disciplina História da Filosofia Antiga IV. O texto base será Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio. Existem várias edições disponíveis. E existe também uma edição em PDF, disponível na internet. Basta clicar AQUI.  

O livro de Diógenes Laércio conta em forma de biografia a vida de vários filósofos gregos. Dividido em dez volumes, começa com Tales de Mileto e termina com Epicuro, sendo que apenas o volume 10, dedicado a Epicuro, será trabalhado no curso. Mas isso não significa que os demais capítulos serão ignorados.

Também será trabalhado no curso o conceito do Tetrapharmakon usado por Epicuro como uma metáfora para a cura dos sofrimentos da alma. Para isso ele "receitava" quatro remédios: jamais temer a morte, a educação dos sentidos, nunca se preocupar com os deuses e ter certeza que na vida tudo passa, inclusive o sofrimento.




Considerado um filósofo grego do período helenístico, Epicuro de Samos teve uma obra tão influente que fez com que diversos e numerosos centros epicuristas fossem construídos no Egito, mais precisamente na Jônia. Seu maior discípulo foi Lucrécio, que difundiu sua filosofia ena Roma do século I. Descendente de pais atenienses, nasceu na ilha de Samos. O ano era 341 ou 342 a. C.

Segundo alguns estudiosos, o início de seu interesse pela filosofia deu-se na adolescência. Seu pai lhe enviou para Téos, pois Epicuro não concordara com o pensador Pânfilo, de sua ilha natal. Em Téos, teve os primeiros contatos com a teoria atomista, pregada por Nausífanes de Téos, discípulo de Demócrito de Abdera. Epicuro estudou e, após algum tempo, fez uma reformulação da teoria observando alguns pontos dos quais tinha discordado.

Outro aspecto da vida de Epicuro que pode ser mencionado é a sua eterna oposição à Academia e ao Liceu, buscando uma filosofia mais prática que correspondesse ao seu tempo. Além disso, pregava que para atingir a certeza é preciso ter plena confiança naquilo que foi passado na sensação pura e, por conseguinte, nas idéias que se formam no espírito, sendo estas o resultado dos dados sensíveis reconhecidos pelas faculdades sensitivas do corpo.

Para Epicuro, o prazer é o único fenômeno capaz de trazer o bem estar. Por pensar desta forma, foi confundido com os hedonistas, que dizem ser o prazer o princípio e o fim de uma vida feliz. No entanto, Epicuro faz uma distinção entre o prazer passageiro e prazer estável. O primeiro seria a alegria, a felicidade. Já o segundo seria a total ausência de dor. Epicuro diz que os sábios procuram pelo segundo prazer, condenando as tentativas impulsivas e indiscriminadas de satisfação pessoal. Segundo ele, “nenhum prazer é em si um mal, porém certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres”.

Diógenes Laércio, um dos maiores estudiosos da obra de Epicuro, atribui ao filósofo de Samos aproximadamente trezentos tomos de uma obra escrita. Porém, esses volumes se perderam, o que restou foram apenas três cartas, uma compilação de provérbios e uma coletânea de sentenças morais. Após lecionar filosofia até 306 a C., fundou sua própria escola filosófica, conhecida como “O Jardim”. Ali lecionou até morrer.







segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

2016 - O Ano de Aristóteles



ARISTÓTELES FOREVER -  A Conferência Geral da Unesco proclamou 2016 o Ano do Aniversário de Aristóteles. A decisão foi tomada durante a 38ª Conferência, que se realizou em Paris, por sugestão da Comissão Nacional grega. A principal razão é que 2016 marca 2400 anos do nascimento do antigo filósofo grego. O aniversário será comemorado com uma conferência internacional, que será organizada pelo Centro Interdisciplinar de Estudos de Aristóteles na Universidade Aristóteles de Salónica, em maio. Espera-se que o fórum traga para a Grécia a elite mundial do pensamento filosófico moderno. 
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Os principais pesquisadores de Aristóteles vão apresentar estudos sobre a sua obra, não só na universidade que tem o seu nome, mas também em Estagira, cidade onde ele nasceu no ano de 384 aC, bem como em Mieza antiga, onde Aristóteles ensinou Alexandre, o Grande. 
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Aristóteles e seu professor Platão foram dois dos mais proeminentes representantes do pensamento filosófico antigo. Ele recebeu treinamento na Academia de Platão em Atenas por 20 anos e deixou-o após a morte do seu professor. A formação de Aristóteles foi inicialmente influenciada pelo platonismo, mas depois virou-se para o empirismo. Para ele, as idéias e conhecimentos de todos os povos são baseados em como eles se percebem.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Fado significa destino







OS FATOS DO FADO - Se os fatos do fado são incontornáveis, o modo de recebê-los, nossa atitude e comportamento não dependem daqueles, mas de nossa sabedoria e virtude. Aí reside precisamente a liberdade humana; não no que se padece ou se goza, mas no modo como se age e reage ao sofrimento e ao gozo, enfim ao que cai fatidicamente sobre nós. A felicidade humana reside no exercício ativo da liberdade e da razão. Ser arrastado como um escravo ou seguir livre conforme o próprio entendimento que entra em acordo com a razão cósmica universal, amor fati. Este acordo de nossa razão particular, de nossas atitudes quotidianas, com a grande razão que move o destino do mundo é o que o homem estoico também chama de conciliação, que ele buscará desde em suas ações privadas até em seus mais amplos propósitos de ativismo cosmopolita. A compreensão desta distinção entre a recepção dos fatos e a atitude que com eles se reconcilia desdobra-se a partir de uma teoria do conhecimento e das capacidades cognitivas da alma humana.
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(Trecho do livro "Arqueologia dos Prazeres", de Fernando Santoro)

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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O CARNAVAL DE XENÓFANES (Fernando Santoro)



Com algumas obras de juventude, como A Origem da Tragédia (1872) e A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (1873), Nietzsche abriu os olhos da filosofia para uma experiência de sabedoria que ele mesmo denominaria de ‘Dionisíaca’. A sua visada era sem sombra de dúvida inspirada na poesia dramática, não apenas a tragédia mas também a comédia antiga. Com a visada artística e moral da tragédia clássica, ele ganhava pesos para avaliar a existência e medir as ideias dos próprios filósofos, assim como nas Rãs, Aristófanes põe Dioniso a comparar o peso artístico de Eurípides e de Ésquilo para saber quem merece o trono da dramaturgia. Todavia, com um olhar ainda bastante influenciado pela filologia e filosofia do seu tempo, Nietzsche esquematiza na sua análise da constituição da tragédia uma dicotomia entre dois polos em tensão: o dionisíaco e o apolíneo; mesmo que, para ele, se inverta a valoração tradicional da história das ciências e a racionalidade apolínea não seja vista como o ápice da civilização grega, mas sim o sintoma da sua decadência. Para Nietzsche, as filosofias de Sócrates e Platão são a expressão de um declínio da força e do caráter grego, os quais eram nítidos e pujantes em pensadores como Anaximandro, Heráclito e Empédocles. Ele avalia a cultura e a civilização do mesmo modo que Aristófanes, para quem o arcaico Ésquilo vence em arte um Eurípides mais dialético e racional. Giorgio Colli, na Origem da Filosofia (1975), levou adiante o projeto Nietzschiano de desconstrução dos ideais ascéticos da ciência e da filosofia, ao mesmo tempo em que o criticava no detalhe, mostrando o quanto a dimensão delirante da sabedoria não era prerrogativa exclusiva de Dioniso e sua corte de sábios e poetas, mas também vigorava nas artes luzentes de Apolo, como na vidência e revelação em transe dos mensageiros oraculares. Heráclito e Sócrates não se opõem para Colli, mas são dois modelos de filósofos apolíneos por excelência, portadores de uma racionalidade não apenas lúcida mas também ambígua, enigmática e paradoxal. 
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O final do Séc. XX foi muito receptivo à ideia de uma sabedoria mais profunda, para a qual a racionalidade e seus valores maiores como a identidade, a não-contradição, a universalidade, a substancialidade, a causalidade encontrariam não somente seus limites mas também sua superação, desconstrução e mesmo destruição. Todavia, a expressão desta sabedoria mais profunda sempre pareceu a reboque da mesma racionalidade que ela negava: o dionisíaco se reconhecendo pelo não racional, pelo não identitário, pelo não substancial, pelo não universal. Parece reconhecer-se sempre negativamente, como a fronteira e o limite da própria filosofia e das ciências positivas. Todavia, a presença de Dioniso e uma sabedoria em seu em torno é notoriamente anterior, e para Nietzsche, mais pujante, senão este não teria identificado como um momento histórico de decadência o que seria a reação ou o esvaziamento desta sabedoria. Em sendo historicamente anterior, é preocupante que nos limitemos quase sempre a compreendê-la não a partir dela mesma, mas a partir do que a sucede e a oblitera, como diz Nietzsche, ou seja, a partir de dicotomias metafísicas, tais como a oposição racional x irracional. Tendemos a ver assim as expressões dionisíacas como limite e negação da racionalidade metafísica e não como o fundo e o terreno mesmo aonde esta vem a Esta limitação do nosso olhar não é uma imposição histórica incontornável. Não estamos condenados ao passado do passado. O passado também abre futuros, e o futuro do passado, talvez passe por reapropriações e releituras do que sempre esteve aí presente, à nossa disposição. Não se deve negar, no caso que ora nos interessa, o fato de que há efetivamente na literatura antiga referências ao que podemos considerar como uma sabedoria dionisíaca, sem que esta sabedoria se apresente apenas como negação de lucidez e racionalidade. Há referências a partir das quais acreditamos que é possível uma caracterização efetivamente positiva e não apenas feita a partir das sombras ou dos contornos da racionalidade metafísica que constituiu o mundo das ciências e das técnicas ocidentais. Sombras e limites que a crise contemporânea dos valores realmente é bem mais capaz de promover, e que não se configuram criativamente pujantes como teria sido aquela sabedoria capaz de engendrar uma expressão sapiencial e artística, de teor ao mesmo tempo sagrado e político envolvendo avassaladoramente toda a comunidade, como foi a tragédia clássica encenada nos festivais dionisíacos. 
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A história da civilização não tem necessariamente o curso linear dos romances e dos manuais, e forças recalcadas da experiência do saber, forças originárias de pensamento, às vezes, podem aparecer onde menos se espera. Vamos explorar uma tal perspectiva, buscando em um fenômeno explicitamente dionisíaco um modo original de saber e pensar, que assim também chamaremos de ‘pensar dionisíaco’. Este fenômeno dionisíaco por excelência é o carnaval. Como nasci carioca, o carnaval para mim é coisa muito séria, e vivida com intensidade não apenas nos quatro dias do calendário oficial, mas na experiência cotidiana do ciclo e da renovação, o ano inteiro de Dioniso. Mas não será o carnaval carioca, meu ponto de partida. O ponto de partida desta especulação é um texto de um poeta e filósofo grego do século sexto antes de Cristo: Xenófanes de Colofão. A história da filosofia tradicional, influenciada pelo comentário de Platão que o classificou junto aos Eleatas1, considera Xenófanes um precursor do monoteísmo no ocidente. Eu não o vejo assim, tanto por razões de ordem histórica quanto pelo que considero mais importante: a própria análise filológica e filosófica dos textos. Sem dúvida, boa parte do que nos foi transmitido desse rapsodo, ao mesmo tempo sábio e poeta, são críticas ao modo como os homens entendem e cultuam os deuses. Mas de crítico da religiosidade mundana a refutador do paganismo, como querem os apologetas cristãos, a distância é grande. A Xenófanes se junta Heráclito, e outros sábios do sexto século, na condenação do antropomorfismo, e ambos citam explicitamente Homero como alvo de suas críticas. Heráclito de Éfeso quer escurraçar estes poetas: Este Homero devia ser expulso dos concursos e bastonado, este Arquíloco também Xenófanes de Colofão não modera os impropérios: Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo  quanto entre os homens é vergonhoso e censurável, roubos, adultérios e mentiras recíprocas. Mas a crítica ao antropomorfismo não os faz menos pagãos e menos devotos de certos deuses do panteão tradicional grego, como Apolo e Dioniso, entre outros, que são referidos normalmente de modo indireto e ambíguo, como no fragmento 17 de Xenófanes, em que não se sabe o fim da referência descritiva, se ela comporta ou não uma crítica, nem o seu teor:
 ἑστᾶσιν δ᾿ ἐλάτης <βάκχοι>4 πυκινὸν περὶ δῶμα. 
 Fincam  de pinho em torno da casa firme. 
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 De toda forma, Xenófanes refere-se aos deuses no plural, como no fragmento 18: 
 οὔτοι ἀπ᾿ ἀρχῆς πάντα θεοὶ θνητοῖσ᾿ ὑπέδειξαν6, ἀλλὰ χρόνωι ζητοῦντες ἐφευρίσκουσιν ἄμεινον. 
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Os deuses de início não mostram tudo aos mortais, mas os que investigam, com o tempo, descobrem o melhor. E mesmo quando vai falar de um deus que se sobrepõe a tudo, este deus está também acima de outros deuses, de modo que não é único: Um único deus, entre deuses e homens o maior, em nada semelhante aos mortais nem no corpo nem no pensamento.7 De toda forma, o dionisismo que queremos evocar em Xenófanes não é religioso, mas diz respeito a um modo de pensar. Este modo está exemplarmente posto no fragmento 15, que vamos agora ler e em seguida analisar :  
ὑπέδειξαν Flor. 29, 41 : παρέδειξαν Ecl. I,8,2 1 ἀλλ᾿ εἰ χεῖρας ἔχον βόες <ἵπποι τ᾿>8 ἠὲ λέοντες ἢ γράψαι χείρεσσι καὶ ἔργα τελεῖν ἅπερ ἄνδρες, ἵπποι μέν θ᾿ ἵπποισι βόες δέ τε βουσὶν ὁμοίας καί <κε>9 θεῶν ἰδέας ἔγραφον καὶ σώματ᾿ ἐποίουν 5 τοιαῦθ᾿ οἷόν περ καὐτοὶ δέμας εἶχον <ἕκαστοι>10. 
Clemente de Alexandria, Miscelâneas V, 109, 3 (seq. B 14)  
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Mas se tivessem mãos os bois, 11 e os leões, quando pintassem com as mãos e compusessem obras como os homens, cavalos como cavalos, bois semelhantes aos bois pintariam a forma dos deuses e fariam corpos 5 tais como fosse o próprio aspecto 12. A crítica ao antropomorfismo dos deuses é clara. Todavia, mesmo se, tal como acontece na República de Platão, Xenófanes critica Homero e Hesíodo porque estes retratam os deuses realizando atos indignos da divindade, esta crítica não se faz ao modo de uma demonstração como faz Sócrates, que argumenta que como os Deuses devem ser sumamente felizes e bons, tais retratos ignominiosos só podem ser falsos. Xenófanes não chega a professar nenhum tipo de conhecimento dos deuses, conhecimento que ele mesmo suspende, no fragmento 34: E ao certo nenhum homem sabe coisa alguma nem há de saber algo sobre os deuses nem sobre o todo de que falo; pois se, na melhor das hipóteses, ocorresse-lhe dizer algo perfeito, ele mesmo, no entanto, não saberia; opinião é o que se cria sobre tudo. 10 <ἕκαστοι> add. Herwerden 13 «περὶ πάντων» : “acerca de tudo” ou “acerca de todas as coisas” pode ter um sentido distributivo: “cada uma das coisas de que eu falo” ou integrante: “o que eu falo sobre a totalidade do universo”. As duas acepções são possíveis e Xenófanes parece usar ambas. A crítica de Xenófanes ao antropomorfismo não é uma crítica ao falso conceito dos deuses, mas endereça-se ao homem e seu mau hábito de ver o mesmo em tudo, de não se abrir ao conhecimento, à experiência da alteridade, sobretudo à alteridade radical que os deuses representam em relação aos próprios homens. Mas para falar do homem e do seu modo de ver o outro, Xenófanes não fala do que o homem é ou não é, sua essência e seus predicados. Muito menos vai Xenófanes falar do que não sabe, isto é, de como são os deuses ou como devem ser. O pensador não tem um discurso categorial sobre determinado sujeito ou sobre determinado objeto de conhecimento. Xenófanes, por outra via não menos racional e reflexiva, nos põe diante de uma cena absurda : leões pintando leões, cavalos cantando hinos a cavalos, bois adorando estátuas de bois. Absurda e cômica cena em que os animais imitam o modo de ser dos homens quando estes retratam os deuses como a si mesmos. O esquema retórico está todo fundado na relação mimética. Mímese que acontece em dois níveis : primeiro e explícito, o modo como cada bicho ou cada espécie representa seus deuses como eles mesmos; segundo e implícito nível, quem se imita a si mesmo ao representar o sagrado somos nós os homens. Resulta que o absurdo e rídiculo das imagens dos bichos faz com que reparemos naquilo que fazemos sem pensar, e que no fim das contas não é menos ridículo e absurdo. Homens que pintam figuras de homens e mulheres, ou que esculpem figuras de mulheres e homens, e que fazem hinos e preces como se se dirigissem a outros homens ou mulheres, mas que por serem considerados imortais e mais poderosos chamam de deuses e deusas. 
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Esse esquema revelador da ignorância e estupidez dos homens é recorrente na poesia e sabedoria satírica de Xenófanes, tal como aparece também no Os etíopes são negros de nariz chato os trácios de olhos verdes e ruivos.14 E aparece também em um dos fragmentos conservados do comediógrafo Epicarmo: θαυμαστὸν οὐδὲν ἁμὲ ταῦθ' οὕτω λέγειν καὶ ἁνδάνειν αὐτοῖσιν αὐτοὺς καὶ δοκεῖν καλὼς πεφύκειν· καὶ γὰρ ἁ κύων κυνὶ 14 O dístico é uma reconstrução de Diels, parafraseando Clemente. κάλλιστον εἶμεν φαίνεται καὶ βοῦς βοΐ, ὄνος δ' ὄνῳ κάλλιστον, ὗς δέ θην ὑί.” (DK 23 B 5) Nada espantoso que nós assim falemos e regozijemos de nós e nos orgulhemos naturalmente de nós mesmos; também para o cão nada mais belo que o cão, e assim o boi parece ao boi, para o asno o asno é lindo, para o porco o porco é mais. A eficácia do discurso cômico e mimético é notável, a comparação é muito mais eloquente do que qualquer demonstração, e não é preciso nenhuma inteligência sutil para entender o recado. Não há melhor retórica para se falar às praças; e é por isso que um discurso de Lula recheado de metáforas futebolísticas diz efetivamente mais ao coração e à inteligência do que um pronunciamento técnico de Dilma. Não é porque o vocabulário simples seja mais próximo das ruas, não se trata de uma característica de ordem semântica. Nem tampouco é porque as imagens sejam de mais fácil reconhecimento do que os conceitos técnicos, por mais que estes últimos tenham usualmente muito poder de ocultar as coisas. Acredito que a principal explicação está no fato de que o esquema cognitivo da mímese e da metáfora é capaz de transportar o pensamento para outra perspectiva, e de transportar uma ocorrência comum para uma situação incomum ou paradoxal e assim também é capaz de abrir um conhecimento novo e mesmo inesperado.  <br> 
Que essa retórica sapiencial é perfeita para dirigir-se à praça, parece evidente, mas a hipótese que quero levantar vai além, pois acredito que esse modelo retórico baseado na mímese e na comparação também tem origem nas praças, em uma certa sabedoria das hordas populares que invadem as ruas, e que talvez tenham uma inteligência própria não negligenciável. Esta inteligência e sua expressão são características de fenômenos de caráter dionisíaco, como a Komé, a procissão que celebra o deus, os corsos, os blocos de rua, os desfiles de carnaval. Gostaria de reler o fragmento 15 de Xenófanes tendo em vista estes fenômenos e reparar em certas semelhanças nos seus modos de expressão. Estas semelhanças poderiam sinalizar uma relação real entre a sabedoria do filósofo, sua crítica aos homens e seus costumes religiosos, e uma sabedoria presente em outros modos de relacionamento entre deuses e homens. No fragmento de Xenófanes os animais são representações caricaturais dos homens. Bois, cavalos e leões são os artistas que representam os deuses como bois, cavalos e leões. Assim como os homens representam os deuses em figuras e gestas antropomórficas. Essa crítica aos artistas e poetas que instauram as narrativas e imagens cultuadas nos ritos tradicionais vai ocupar os primeiros filósofos até Platão, que os vai expulsar da cidade justa. É uma evidente crítica a poesia mimética. Todavia, e isso é particularmente genial, a crítica ao mimetismo dos homens é feita com uma reflexão igualmente mimética, como já reparamos. Significa que o poeta Xenófanes não sai do esquema mimético para criticá-lo, mas ao contrário, aprofunda-o deliberadamente. É o absurdo mimetismo dos animais que evidencia esta ignorância e vaidade humana que insiste em representar os deuses com formas humanas. É o uso evidente da máscara que mostra que a máscara é máscara e não o próprio real. 
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A evidência da máscara desmascara as falsas representações dos deuses. É como se no fragmento de Xenófanes, vissemos desfilar não os próprios animais, mas um bloco de homens fantasiados de bois, cavalos e leões, que se fazem passar por deuses. É o carnaval de Xenófanes que ri dos homens e dos seus autoenganos. Mas o carnaval, a festa da máscara, da mímese e da representação é, como sabemos, um outro rito que celebra também um outro deus. Não um deus avesso às imagens e representações como o deus do Êxodo, mas o deus de todas as imagens, das imagens como imagens, o deus das máscaras que é Dioniso. Dioniso, o deus da contínua transmutação, que não se assenta em uma única figura, uma única imagem, um substrato único, mas perpassa várias formas divinas e humanas, animais e vegetais, que nascem, morrem e renascem. O deus dos ciclos de destruição e renovação cuja expressão sapiencial acompanha, na forma retórica relacional da comparação e da imitação, a variação das faces sazonais dos seres vivos e da natureza, assim como a festa em que a multidão desfila pelas ruas com suas máscaras desmascarando ilusões no carnaval. Mas por que a komé, o corso popular dionisíaco estaria vestindo propriamente essas fantasias do poema satírico de Xenófanes : máscaras de bois, cavalos e leões? A escolha desses animais sempre me intrigou. A experiência com o carnaval e as suas máscaras inspirou-me uma hipótese, que gostaria de compartir 
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Que máscaras fazem sucesso no carnaval? Quais são as máscaras mais vendidas nas ruas? As máscaras das celebridades, dos famosos, dos homens de destaque, cuja imagem é caricaturada na inversão social e política das festividades dionisíacas. O povo veste as máscaras de Barack Obama, de Osama Bin Laden, de Joaquim Barbosa, de José Dirceu. E aproveita para satirizar, e criticar pela ridicularização, os atos que tiveram grande repercussão política e social. Não apenas os atos recrimináveis, mesmo se foram atos vantajosos à cidade e ao mundo, há sempre um carater altivo e vaidoso nas grandes personalidades que o corso popular inverte e ridiculariza. Então por que as máscaras de bois, cavalos e Acredito que os animais escolhidos não aparecem à toa, mas representam cada um as classes poderosas das poleis : são animais associados à aristocracia, homens poderosos que possuem terras e criam gado, guerreiros que andam a cavalo na paz e na guerra, tiranos vorazes como leões. Estes, ainda mais do que os outros homens, são vaidosos e comparam-se aos deuses, dos quais se dizem próximos, parentes, descendentes. Nesta perspectiva, a crítica a Homero não teria apenas o caráter da incompreensão teológica do antropomorfismo, mas seria também uma crítica à arrogância dos valores aristocráticos transmitidos nestes seus poemas épicos que celebram os grandes herois dos ciclos guerreiros. Por este caminho, faz muito sentido que os deuses agrários e ctonicos, os deuses dos mistérios eleusinos e do cortejo dionisíaco venham nas festividades de renovação, nas leneias ou no carnaval, destronar os herois aristocratas celebrados na poesia épica. A comédia e a tragédia são os testemunhos escritos dessa reversão da aristocracia, ridicularizada numa e amaldiçoada noutra. Nos festivais do carnaval, a poesia épica é escurraçada a bastonadas e ganham as ruas as hordas populares embriagadas e delirantes, travestidas com a eloquência de suas máscaras satíricas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

SIMPÓSIO OUSIA 2015



A VIDA DE XENÓFANES - Filósofo, poeta, sábio e pensador religioso. Assim era Xenófanes de Cólofon, tema da palestra do Professor Fernando Santoro no "Simpósio Ousia 2015", que vai acontecer nos dias 26 e 27 de outubro, na Sala Celso Lemos, no IFCS. Já que o tema do simpósio é "A Filosofia e os gêneros discursivos", o professor Santoro escolheu Xenófanes para falar, entre outras coisas, da sua ideia de religião. Xenófanes dizia que o ser absoluto, essência de todas as coisas era o Um. E de acordo com Teofrasto uma das fórmulas contidas no pensamento de Xenófanes é: "Tudo é o Um e o Um é o Deus".
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Sobre a vida de Xenófanes o Professor Fernando Santoro escreveu:
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Xenófanes nasceu na cidade de Colofão, na Jônia, em torno de 570 a.C. Foi contemporâneo de Anaximandro, respirou os ares dos filósofos naturalistas da região e, sobretudo, seu pendor pela agonística em torno dos princípios. Com a invasão dos Persas, fugido ou banido, migrou em direção ao ocidente por volta de 545, passando por várias cidades gregas, pela Sicília, pelo sul da Itália, sempre realizando sua atividade de rapsodo. Como rapsodo, interpretava certamente Homero, Hesíodo e também poemas de própria autoria. Pelas suas considerações críticas à épica arcaica se pode imaginar que suas interpretações não fossem somente récitas inspiradas desprovidas de reflexão, tal como Platão caricaturou a atividade dos rapsodos no diálogo Íon. Esteve presente na fundação de Eleia em 540 e muito provavelmente ali manteve intensa atividade intelectual e letiva. Encontrou-se certamente com o jovem Parmênides, mas as notícias de que foi o fundador da Escola Eleata decerto decorrem do desejo de transformar algumas afinidades de prática e doutrina em grandes encontros históricos. De toda forma, a recepção do poeta põe na conta de sua nova teologia, crítica do antropomorfismo de Homero e Hesíodo, a ideia e teoria do Uno, assumida de diversas maneiras pelos filósofos que atuaram em Eleia. Além dos poemas de que nos sobraram fragmentos, também se tem notícia de que escreveu outros poemas épicos, como a Fundação de Colofão e a Fundação de Eleia. Xenófanes viveu mais de noventa anos, conforme seus próprios versos autobiográficos.