Para aqueles, oh Heródoto, que não podem ter um conhecimento perfeitamente exato de cada um de meus escritos sobre a Natureza, e estudar a fundo os principais livros, maiores, que escrevi, fiz um resumo de toda minha obra que permite reter mais facilmente as principais teorias. Poderão, assim, evitar ter que fazê-lo, eles mesmos, com minhas idéias principais na medida em que se interessam pela Natureza. De outro modo, os que já conhecem a fundo minhas obras completas, necessitam ter presentes na memória as linhas gerais de minha doutrina; muitas vezes temos mais necessidade de um resumo que de conhecimento particular dos detalhes.
Há que avançar passo a passo, retendo constantemente o conjunto da doutrina para compreender bem seus detalhes. Esse duplo efeito será possível se forem bem compreendidas e se o reterem em sua verdadeira formulação as idéias essenciais, e se as aplica seguido aos elementos, às idéias particulares e às essenciais. Conhece a fundo a doutrina quem pode obter partido rapidamente das idéias gerais. Pois é impossível colocar em seu completo desenvolvimento a totalidade de minha obra se és incapaz de resumir para si mesmo e em poucas palavras o conjunto daquilo que se quer aprofundar particularmente, detalhe a detalhe.
Já que este método resulta útil para todos que estudam seri-amente a física, aconselho a todos os homens decididos, que se entregam assiduamente ao estudo, e que buscam nele o meio de obter tranquilidade na vida, que façam um resumo similar do conjunto de minhas teorias.
Há que começar, Herodoto, por conhecer o que se oculta nas palavras essenciais, a fim de poder, relacionando-as com as coisas mesmas, formular juízo sobre nossas opiniões, nossas idéias e nossas dúvidas. Deste modo, não corremos o risco de discutir até o infinito sem resultados e de pronunciar palavras vazias. Com efeito, é necessário estudar primeiramente o sentido de cada palavra, para não ter necessidade de um excesso de demonstrações, quando discutimos nossas perguntas, nossas idéias e nossas dúvidas.
Depois há que se observar todas as coisas, confrontando-as com as sensações e, de modo geral, com as intuições do espírito ou qualquer outro critério. Igualmente pelo que diz respeito às nossas afeições presentes, para poder julgar segundo os signos dos objetos de nossa atenção e os objetos ocultos. Quando já se viu tudo isso, se está preparado para estudar as coisas invisíveis, em primeiro lugar, podendo dizer que nada nasce do nada, já que as coisas não tiveram necessidade de semente, tudo poderia nascer de tudo.
De outra forma, se o que desaparece volta ao nada, todas as coisas pereceriam, já que não poderiam converter-se em mais que nada, do que resulta que no universo tenha sido sempre e será sempre o que é atualmente, já que não há nenhuma coisa em que se possa converter, e tampouco há, fora do universo, nada que possa atuar sobre ele para provocar uma troca. O universo está formado por corpos. Sua existência é mais que suficientemente provada pela sensação, pois é ela, repito, a que sere de base ao raciocínio sobre as coisas invisíveis. Se o que chamamos de vazio, a extensão, a essência intangível, não existisse, não haveria lugar em que os corpos poderiam mover-se; como efeito, vemos que se mo-vem. À margem destas duas coisas não se pode compreender nada, nem por intuição, nem por analogia com os dados da intuição – de que existe como uma natureza completa, já que não estou falando de acontecimentos fortuitos ou de aci-dentes.
Entre os corpos, uns são compostos, outros são os elementos que servem para fazer os compostos. Estes últimos são os átomos indivisíveis e imutáveis, já que nada pode converter-se em nada e é necessário que subsistam realidades quando os compostos se desagregam. Estes corpos estão completos por natureza e não têm neles lugar nem meio pelo qual poderão se pode destruir.
Do que resulta que tais elementos de-vem ser, necessariamente, as partes indivisíveis dos corpos. Ademais, o universo é infinito. Em efeito, o que é finito tem um extremo e o extremo se descobre por comparação com o outro. Assim que, necessitando de extremo, não tem, em ab-soluto, fim: e não tendo fim, é necessariamente infinito e não finito. O universo é infinito desde dois pontos de vista: pelo número de corpos que contém e pela imensidão de vazio que contém. . Se o vazio fosse infinito e o número de corpos limitado, estes se dispersariam em desordem pelo vazio infinito, já que não haveria nada para sustentá-los e nada para uni-los às coisas. E se o vazio fosse limitado e o número de corpos infinito, não haveria lugar onde poderiam se instalar.
De outra forma, os corpos completos e indivisíveis, dos que estão formados, e nos que se resolvem nos compostos, apre-sentam formas tão diversas que não podemos conhecer seu número, já que não é possível que tantas formas diferentes provenham de um número limitado e compreensível de figuras semelhantes. Ademais, cada figura apresenta um número infinito de exemplares, porém, pelo que diz respeito à sua diferença, tais figuras não alcançam um número absolutamente ilimitado. Seu número é, simplesmente, incalculável. Ade-mais, os átomos estão animados de movimento perpétuo. Uns estão separados por grandes intervalos; outros, pelo contrário, conservam seu impulso todas as vezes que são desviados, unindo-se a outros e convertendo-se nas partes de um composto. É a consequência da natureza do vazio, incapaz por si mesma de imobilizá-los. De outro modo, sua inerente solidez os faz ressaltar em cada choque, ao menos na medi-da em que sua integração em um composto lhes permita ressaltar logo após um choque.
O movimento dos átomos não teve começo, já que átomos são eternos como o vazio. De outra forma, há uma infinidade de mundos, sejam parecidos com o nosso, sejam diferentes. Em efeito, sendo os átomos infinitos, como se acaba de demonstrar, são levados por seu movimento até os lugares mais longes. E tais átomos, que por sua natureza servem, já por si mesmos, por sua ação, para criar um mundo, não podem ser utilizados todos para formar um único mundo, ou um número limitado de mundos, nem para os semelhantes a esse, nem para os diferentes, de modo que nada impede que exista uma infinidade de mundos.
Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o futuro. Temos portanto de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para a obter. Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa.
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Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retêm a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente. Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade. Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado.
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A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são. Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa mas sim a da mais feliz. Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido mas, uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades. Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento. Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá. Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais.
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Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa de fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia. Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas.
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Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congénere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem. Encaramos a auto-suficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome.
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Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de o encontrar, e faz-nos intrépidos face à fortuna. Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe ou seja o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto. De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela.
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Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes. Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas acções não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas acções merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males.
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Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planeado nas nossas acções do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planeado. Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.”
Aprender o destemor da morte é aprender a enfrentar cada perigo e cada obstáculo com a coragem e a determinação devidas. É também aprender a difícil lição do desapego: saber que a cada dia um dia se conquista e um dia se perde. (Trecho do livro "Arqueologia dos Prazeres", de Fernando Santoro)
ARQUEOLOGIA DOS PRAZERES - No livro em que faz uma reflexão sobre o modo como os antigos gregos lidavam com o prazer, o Professor Fernando Santoro dedica um capítulo inteiro a Epicuro. Com sua leitura atenta e perspicaz do que restou do pensamento de Epicuro, e também do que se disse sobre ele, o Professor Santoro construiu um saboroso perfil desse ilustre pensador grego. Arqueologia dos Prazeres é uma publicação da Editora Objetiva e pode ser adquirido AQUI. Leia logo abaixo o capítulo que trata de Epicuro.
Epicuro
Talvez
a simplicidade seja devida apenas ao fato de que a tradição textual que nos
restou de Epicuro se encontre sobretudo no gênero epistolar; mas é sempre
reconfortante ver a filosofia falar com os dois pés no chão. De fato, o que
temos da teoria de Epicuro sobre o prazer encontra-se principalmente numa carta
dirigida a Meneceu. Uma carta que propõe uma terapia filosófica para realizar a
vida feliz. A filosofia de Epicuro está toda voltada para a felicidade: tanto a
Fisiologia, o seu estudo da natureza, quanto o Cânon, a sua teoria da linguagem
e do conhecimento, estão a serviço da cura filosófica dos males que travam o exercício de uma vida feliz.
Tudo que não está efetivamente voltado para este fim é adiável e dispensável,
Epicuro abomina a polimatia, a erudição sem propósito, a aprendizagem excessiva
que percorre todas as áreas da cultura e da ciência antes de chegar aos saberes
que realmente importam. Mas aqueles saberes que transformam a vida e a tornam feliz,
esses são urgentes, porque não se deve adiar a felicidade: a vida é curta,
eterna é somente a morte que chega rápido e sem pedir licença.
“Que
ninguém, jovem, tarde a filosofar, nem, ficando idoso, se canse da filosofia.
Pois nunca é cedo demais nem tarde
demais para cuidar da saúde da alma.” (Carta a Meneceu)
O
epicurismo é antes de tudo uma apurada atenção aos fins e à medida. A
simplicidade é decorrência dessa postura, a objetividade na realização da vida feliz,
também. O estudo da natureza é claramente orientado por estes valores: o
atomismo é a perspectiva naturalista que, com a menor quantidade de elementos e
causas, mais exprime o movimento, o vir-a-ser, as transformações, diferenças e
relações dos entes. Epicuro resume os princípios da sua Fisiologia também em
uma carta, dirigida a Heródoto. O seu atomismo é inspirado de Demócrito, mas
Epicuro acrescenta um elemento novo, que o vai separar ainda mais das
concepções dos estóicos e de todo determinismo, naturalista ou de qualquer
outra ordem,
Os
átomos, em seu movimento no vazio, declinam, desviam-se de sua trajetória
retilínea em ângulos mínimos imprevisíveis. Esse é o aspecto mais obscuro da
física de Epicuro, não apenas pelo problema do movimento em si mesmo, mas também
pelo fato de que é um ponto da teoria que nos chegou de modo acentuadamente
indireto, não constando nem nas cartas transcritas por Diógenes Laércio nem em
alguma outra citação direta. Mas, com toda a problematicidade, é sem dúvida o aspecto
mais genial da Fisiologia. A marca de um pensamento que submete a teoria aos
fenômenos, e também que os impregna de valores primordiais. Se a existência do
homem pode ser livre, é que há na natureza mesma uma causa da liberdade. O fado não determina tudo: pela teoria dos
mínimos desvios o acaso retoma um poder fundamental nos acontecimentos do mundo. Pelo acaso, geram-se mundos diferentes,
diferentes ordenações e relações entre os corpos; pelo acaso, diferentes corpos
são gerados dos aglomerados de átomos; pelo acaso o acidente é possível, a
falha, o inusitado e o extraordinário. Porém, mais genial ainda, não se trata
de uma força esporádica, de um contratempo da natureza, algo que no mais das vezes
não é assim, como supõe a teoria aristotélica do acidente. A declinação dos
átomos é constitutiva do movimento natural; de todo movimento natural. O acaso não acontece por acaso, o acaso
está presente em todo movimento; ainda que o seu grau de atuação seja mínimo.
Ainda que pequeno, sempre há desvio.
“O
clinamen ou declinação não tem nada a ver
com um movimento oblíquo que viria por acaso modificar uma queda vertical. Ele está presente o tempo
todo: não é um movimento secundário, nem
mesmo uma segunda determinação do movimento do átomo, que aconteceria em um
momento qualquer, em um lugar qualquer.” (Gilles Deleuze)
Mesmo
para explicar os desvios e o acaso, a teoria requisita apenas mais uma causa,
totalmente compatível e integrada às demais características da enxuta e
moderada teoria atomista. A Natureza de Epicuro é uma engrenagem simples e
completa, que inclui nela mesma o princípio da diferenciação e da proliferação
dos corpos e dos arranjos de corpos, os também múltiplos mundos. Uma teoria que
só não abre mão de corresponder aos desafios postos pela compreensão dos
próprios fenômenos, que nunca são ordenados em linha reta. A natureza não
semeia as estrelas em xadrez.
A
Canônica, o método de conhecimento, também é dotada de objetividade e
comedimento. O conhecimento provém dos sentidos, porque na sensação são os
próprios corpos que se manifestam para nós e em relação a nós (pròs henás),
emanações de simulacros (phantasta) que provêm de outros corpos. Os dois
extremos do sentido devem articular: de um lado o fenômeno, que sempre é tal
como se mostra; no outro extremo o movimento dos átomos, invisíveis mais
necessários para compreender com simplicidade o que se passa no mundo perceptível. A extremidade fenomênica é limitada pela
evidência, a extremidade atômica, pela coerência. Do momento que consigo coerência
na explicação do que a mim se mostra isto é suficiente para o
conhecimento. E, sobretudo, o
conhecimento está a serviço da vida feliz, sua finalidade e utilidade está
justamente em examinar aqueles pensamentos e fantasias que perturbam a alma,
trazer a verdade até o ponto em que ela nos predispõe à serenidade. Este é também o limite de extensão do
conhecimento desejável para o ser humano, e o seu valor: conhecimento para a
vida. Por isso, Epicuro valoriza mais a prudência do que a própria filosofia. O
que importa não é o conhecimento absoluto ou desinteressado. Importa aprender a
viver, saber alcançar a felicidade, descobrir como melhor sentir prazer.
O
prazer, a realização de uma vida feliz, é um afeto (pathos) que corresponde a
uma plenitude, determinada principalmente de modo negativo. Ausência de dores no
corpo, entre as quais se inclui todo tipo de carência, que Epicuro identifica
como causa dos desejos naturais, desejos do que é conforme à nossa natureza, do
que nos é congênito (symphyton). Primeiro, suprir as carências naturais e
aplacar as dores, também naturais, do corpo. Em seguida, desafogar as
perturbações, todos os pensamentos e opiniões que nos enganam e provocam
aflições vãs. Essa plenitude que se dá quando estão supridas as carências do
corpo e aliviados os estorvos da alma, Epicuro chama de imperturbabilidade
(ataraxia).
O
fato de que a determinação primeira da ataraxia seja duplamente negativa não
significa que seja um estado de indiferença ou de apatia. Acompanha a
imperturbabilidade um estado de prazer, o gozo da vida saudável, a alma livre
para pensar a verdade e partilha-la com os amigos. Para alcançar o estado de
ataraxia, Epicuro sugere uma terapia especial: a ingestão de fármaco, uma droga
poderosa capaz de reverter tanto as dores do corpo quanto as angústias da alma.
Esta droga poderosa é a própria filosofia. Como toda droga, é preciso saber
muito bem administra-la, sobretudo, é importante não errar na dose.
Tetrafármaco
Droga filosófica é composta de quatro antídotos
contra os quatro principais venenos que produzem ou aumentam a dor no corpo e
os pesares na alma, por isso é chamada de tetrafármaco.
“Consequentemente,
quem consideras que seja melhor do que aquele que tem uma venerada opinião
sobre os deuses; e passando por tudo se mantem destemido diante da morte; que
refletiu sobre a meta da natureza e que, de um lado, o limite dos bens é
simples de alcançar e fácil de obter, enquanto, dos males, ou é curto o tempo
ou o sofrimento.”
O
primeiro ingrediente é ministrado pela filosofia desde que ela surgiu, à medida
que se insurgia contra os mitos dos poetas e as concepções correntes de idealização
e imaginação dos deuses. Os homens tem dois tipos de acepção dos deuses, a primeira
é a noção comum, a prenoção (prolepsis) que resulta de uma evidência. Esta
define os deuses como viventes imortais e bem-aventurados. Nisto não incorrem
em erro, porque nesta prenoção não dizemos dos deuses nem que existem nem como;
a prenoção apenas abre o sentido de uma questão. Mas quando os homens vão dizer
como os deuses existem e com que se parecem, costumam errar feio em suas falsas
presunções (hypolépseis). Erram, porque em vez de buscar o que seja o melhor e
mais digno, acabam imaginando os imortais à semelhança dos próprios homens, com
vontades, paixões, preocupações, juízos e até desejos e vícios – diferem apenas
no poder excedente e na ausência da
morte. Os homens projetam seus valores e ideais sobre as fantasias que produzem
dos deuses de modo que não examinam o que seja realmente o melhor e mais
venturoso e que com direito e dignidade cabe a uma concepção veneranda do sagrado. Além de não
respeitar a verdade dos próprios deuses,
tais presunções provocam angústias atrozes e até mesmo atitudes descabidas e violentas.
O peso do olhar divino sobre as ações humanas faz com que se esteja o tempo
todo preocupado em agradar ou não desagradar os deuses, enquanto não se
examinam realmente a virtude e a excelência das próprias ações. Responsabilizamos
os deuses pelo que nos vem de bom ou de ruim, como se estivessem muito preocupados
em nos recompensar ou castigar. Ficamos apreensivos com as torturas medonhas do
Tártaro e esperamos a sorte de alcançar as ilhas dos bem aventurados. E
queremos dobrar os deuses a nossas vontades com preces, oferendas e
sacrifícios. Com tudo isso, abrimos mão de exercer nossa liberdade na responsabilidade
das decisões e das ações.
O
estudo da natureza tem como primeira missão e objetivo alcançar a verdadeira
constituição do mundo, dos seus corpos, dos seus viventes, e dos viventes que
reputamos mais excelentes. A teoria atomista nos apresenta o cosmo em sua
autonomia e autarquia, que contém todas as forças para mover-se e jogar o jogo
do vir-a-ser e do ir-de-ser com simplicidade e graça, sem precisar de nenhum maestro
a conduzir a grande sinfonia do real. Neste
grande jogo os homens podem participar e atuar com responsabilidade, com a
assunção de atitudes e valores, não são títeres dos deuses ou joguetes de um
destino. Balizam-se os sábios e prudentes pela boa condução da vida, pela fuga
das dores e pela busca de uma existência saudável e serena no prazer.
Para
Epicuro os deuses são realmente o que há de melhor e mais excelente, de modo
que podem ser os êmulos de nossas ações. Mas este ideal divino de vida feliz se
projeta sobre o homem mais nobre não
como um exercício arbitrário de desejo, poder e vontade despótica, mas como a
máxima serenidade, a mais imperturbável ataraxia. Os deuses, mais do que
qualquer um, são imperturbáveis por nossos feitos, seja para agradá-los, seja
para afrontá-los. Os mais excelentes viventes tem como mais ninguém aquilo que
Nietzsche chamou de “pathos da distância”. Não precisamos temer os deuses, nem
nos pautar por servi-los. Os deuses absolutamente não precisam em nada de nós.
Principalmente, não devemos entrar em disputas encarniçadas e violentas,
propiciar dores e sofrimentos, sacrificar vidas humanas em seus nomes. Os
deuses não estão nem aí para nós.
O
primeiro antídoto visa curar-nos de nossas projeções transcendentes, dos falsos
valores que elegemos para imitar e obedecer. Deve curar-nos das angústias do
além. O segundo antídoto visa fazer nos aquiescer no limite do que somos, em
nossa condição de viventes mortais. Perturba-nos demais o além, mas também
perturba-nos a ideia, a certeza, de que a partir de determinado instante não haverá
mais além. Depois do temor ao sobrenatural
dos deuses, nada perturba mais nossa alma do que o medo da morte. Assim,
a segunda missão da fisiologia é compreender o sentido simples e verdadeiro da
morte e da mortalidade.
Por
que tememos a morte? Supomos que seja algum tipo de dor ou sofrimento. No
entanto, a fisiologia da vida nos mostra que toda dor ou sofrimento só se dá
como percepção de algum sentido. Ora, o morto não sente absolutamente nada, de
modo que não tem como sentir dor. O morto não sente dor, mas o vivo que teme a
morte sofre a antecipação dessa dor imaginária. Não é a morte que nos aflige,
mas o temor da morte, essa antecipação de um sofrimento ilusório, que nunca
poderá ser sentido, quando de fato aderir a hora. Sofremos, portanto a dor de uma mentira.
Sofremos por puro engano e ignorância, mas sofremos. Quando realmente
aprendemos o sentido do vazio não como a falta mas como o acabamento e a
planificação da vida, então não teremos o medo da morte. Mas a evidência dessa
verdade não é alcançada por um raciocínio frio: entender por que razões a morte
não é um sofrimento é razoavelmente fácil, difícil porém é alcançar a atitude
deste entendimento e não sucumbir em vida ao temor da morte quando os fatos da
vida nos desafiam. O sábio e o prudente
não é alguém que pode seguir coerentemente a dedução de um raciocínio, mas aquele que
efetivamente consegue pautar sua vida pelo que sua mente alcança com clareza no
pensamento. Aprender o destemor da morte é aprender a enfrentar cada perigo e
cada obstáculo com a coragem e a determinação devidas. É também aprender a difícil
lição do desapego: saber que a cada dia um dia se conquista e um dia se perde.
O
temor da morte ainda traz, além da própria angústia com o nada, outras
conseqüências também portadoras de outras aflições e vaidades: a ambição
desmedida e a ganância, a ânsia de glória. A segunda componente do tetrafármaco
mostra-nos como todos os bens são passageiros e que a vida também é uma passagem do nada para coisa nenhuma.
Não temer a morte é aprender a morrer a cada dia, ganhar a única riqueza
exclusiva dos mortais: a experiência da passagem do tempo. A passagem que
cronicamente a tudo corroi é, sem o temor da morte, transfigurada em passagem
prazerosa da intensidade e da vertigem de viver.
Bebamos
e comamos, pois amanhã morremos.
O
terceiro remédio é administrado à alma para que esta seja boa protetora do
corpo, é ainda uma droga filosófica porque a temperança nos usos do corpo é em
primeiro lugar o resultado de um saber. O saber que o homem prudente conquista
de alcançar e conservar a medida. O terceiro elemento nos fala da experiência de otimizar o prazer. A maior
quantidade, a melhor qualidade, e o mais longo usufruto do prazer cabem ao que
se torna o senhor da medida. Para este é simples alcançar e fácil de obter o
prazer. Não porque este sábio seja cheio de recursos ou aparelhado de poderes
como um tirano, mas porque aprendeu a sorver a máxima delícia do simples e com
pouco. Aprendeu a encontrar o gozo na circunstância que o rodeia, no que a
generosa natureza lhe estendeu por graça.
O frescor de uma água cristalina no riacho ou no banho de chuva, o calor
acolhedor de uma manhã ensolarada, a fruta madura no pé, o mel colhido que recompensa
o esforço. O prazer, Epicuro o cultiva no jardim. Os prazeres supérfluos são os
mais difíceis e não são os melhores. Todavia os demais prazeres não são para
desprezar ou repudiar, nenhum prazer é em si mesmo ruim, mas o homem prudente e
conhecedor da medida sabe calcular se o esforço
despendido é proporcional ao prazer alcançado; sabe ir até onde o corpo
é capaz de comprazer-se e sabe parar quando
vê se aproximar a dor; sabe ponderar os que hoje são prazeres, mas amanhã podem
fazer sofrer. A medida do prazer, mas este é um afeto pelo qual podemos ser totalmente
senhores e responsáveis. O prazer mais intenso, no entanto, sequer precisamos
cuidar de sua medida, nunca este prazer é excessivo, e ele é o que está mais
disponível e só depende mesmo de nossa
disposição e caráter: é prazer da convivência entre amigos. Se a convivência ainda
é a que entretem a prazerosa atividade da filosofia, então somos realmente bem-aventurados
e vivemos entre eles.
“mas
viverás como um deus entre os homens. Pois em nada se parece com um vivente
mortal o homem que vive entre bens imortais”.
O
quadrado terapêutico se fecha com uma sabedoria controladora acerca do
sofrimento. O sofrimento ou é curto no tempo, ou curto na intensidade. Para a experiência da dor, ministra-se o
antídodo da paciência. O concurso do tempo faz passar a dor; assim quando temos
a ciência da passagem do tempo, podemos aprender a ausentar-nos da dor. A dor
caiu sobre nós nesse momento? Abstraiamo-nos do momento. O nosso pensamento é
capaz de adiantar fim da dor na esperança do alívio, e a suportarmos sem
desespero, se temos fé de que ela vai passar. O tempo aqui é o grande remédio e
saber que o tempo tudo leva é um conforto no momento da dor. Além da
expectativa do alívio, também se pode abstrair o momento do sofrimento pela lembrança
do prazer. Quando a dor sobrevém e não temos o que fazer para evita-la, o
pensamento pode refugiar-se em uma memória prazerosa; e lembrar de um prazer é
revive-lo um pouco. Mas se a dor é pungente demais, tenhamos essa convicção: a
dor muito intensa é curta, ou porque recobramos a saúde e o prazer rapidamente,
ou porque logo morremos e, sem sensação, a morte é alívio para a dor excessiva
e sem expectativa de cura. Mas se, por outro lado, o sofrimento se torna longo
e crônico, a natureza dos sentidos se encarrega de enfraquecer a sensação, até
o ponto de nos acostumarmos ao que antes era doído, até que a dor de todo dia
vira um despercebido ruído de fundo.
A ÉTICA DE EPICURO - No primeiro semestre de 2016 o Professor Fernando Santoro vai se dedicar ao pensamento e ideias de Epicuro, na disciplina História da Filosofia Antiga IV. O texto base será Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio. Existem várias edições disponíveis. E existe também uma edição em PDF, disponível na internet. Basta clicar AQUI.
O livro de Diógenes Laércio conta em forma de biografia a vida de vários filósofos gregos. Dividido em dez volumes, começa com Tales de Mileto e termina com Epicuro, sendo que apenas o volume 10, dedicado a Epicuro, será trabalhado no curso. Mas isso não significa que os demais capítulos serão ignorados.
Também será trabalhado no curso o conceito do Tetrapharmakon usado por Epicuro como uma metáfora para a cura dos sofrimentos da alma. Para isso ele "receitava" quatro remédios: jamais temer a morte, a educação dos sentidos, nunca se preocupar com os deuses e ter certeza que na vida tudo passa, inclusive o sofrimento.
Considerado um filósofo grego do período helenístico, Epicuro de Samos teve uma obra tão influente que fez com que diversos e numerosos centros epicuristas fossem construídos no Egito, mais precisamente na Jônia. Seu maior discípulo foi Lucrécio, que difundiu sua filosofia ena Roma do século I. Descendente de pais atenienses, nasceu na ilha de Samos. O ano era 341 ou 342 a. C.
Segundo alguns estudiosos, o início de seu interesse pela filosofia deu-se na adolescência. Seu pai lhe enviou para Téos, pois Epicuro não concordara com o pensador Pânfilo, de sua ilha natal. Em Téos, teve os primeiros contatos com a teoria atomista, pregada por Nausífanes de Téos, discípulo de Demócrito de Abdera. Epicuro estudou e, após algum tempo, fez uma reformulação da teoria observando alguns pontos dos quais tinha discordado.
Outro aspecto da vida de Epicuro que pode ser mencionado é a sua eterna oposição à Academia e ao Liceu, buscando uma filosofia mais prática que correspondesse ao seu tempo. Além disso, pregava que para atingir a certeza é preciso ter plena confiança naquilo que foi passado na sensação pura e, por conseguinte, nas idéias que se formam no espírito, sendo estas o resultado dos dados sensíveis reconhecidos pelas faculdades sensitivas do corpo.
Para Epicuro, o prazer é o único fenômeno capaz de trazer o bem estar. Por pensar desta forma, foi confundido com os hedonistas, que dizem ser o prazer o princípio e o fim de uma vida feliz. No entanto, Epicuro faz uma distinção entre o prazer passageiro e prazer estável. O primeiro seria a alegria, a felicidade. Já o segundo seria a total ausência de dor. Epicuro diz que os sábios procuram pelo segundo prazer, condenando as tentativas impulsivas e indiscriminadas de satisfação pessoal. Segundo ele, “nenhum prazer é em si um mal, porém certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres”.
Diógenes Laércio, um dos maiores estudiosos da obra de Epicuro, atribui ao filósofo de Samos aproximadamente trezentos tomos de uma obra escrita. Porém, esses volumes se perderam, o que restou foram apenas três cartas, uma compilação de provérbios e uma coletânea de sentenças morais. Após lecionar filosofia até 306 a C., fundou sua própria escola filosófica, conhecida como “O Jardim”. Ali lecionou até morrer.
ARISTÓTELES FOREVER- A Conferência Geral da Unesco proclamou 2016 o Ano do Aniversário de Aristóteles. A decisão foi tomada durante a 38ª Conferência, que se realizou em Paris, por sugestão da Comissão Nacional grega.
A principal razão é que 2016 marca 2400 anos do nascimento do antigo filósofo grego. O aniversário será comemorado com uma conferência internacional, que será organizada pelo Centro Interdisciplinar de Estudos de Aristóteles na Universidade Aristóteles de Salónica, em maio. Espera-se que o fórum traga para a Grécia a elite mundial do pensamento filosófico moderno.
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Os principais pesquisadores de Aristóteles vão apresentar estudos sobre a sua obra, não só na universidade que tem o seu nome, mas também em Estagira, cidade onde ele nasceu no ano de 384 aC, bem como em Mieza antiga, onde Aristóteles ensinou Alexandre, o Grande.
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Aristóteles e seu professor Platão foram dois dos mais proeminentes representantes do pensamento filosófico antigo. Ele recebeu treinamento na Academia de Platão em Atenas por 20 anos e deixou-o após a morte do seu professor. A formação de Aristóteles foi inicialmente influenciada pelo platonismo, mas depois virou-se para o empirismo. Para ele, as idéias e conhecimentos de todos os povos são baseados em como eles se percebem.
OS FATOS DO FADO - Se os fatos do fado são incontornáveis, o modo de recebê-los, nossa atitude e comportamento não dependem daqueles, mas de nossa sabedoria e virtude. Aí reside precisamente a liberdade humana; não no que se padece ou se goza, mas no modo como se age e reage ao sofrimento e ao gozo, enfim ao que cai fatidicamente sobre nós. A felicidade humana reside no exercício ativo da liberdade e da razão. Ser arrastado como um escravo ou seguir livre conforme o próprio entendimento que entra em acordo com a razão cósmica universal, amor fati. Este acordo de nossa razão particular, de nossas atitudes quotidianas, com a grande razão que move o destino do mundo é o que o homem estoico também chama de conciliação, que ele buscará desde em suas ações privadas até em seus mais amplos propósitos de ativismo cosmopolita. A compreensão desta distinção entre a recepção dos fatos e a atitude que com eles se reconcilia desdobra-se a partir de uma teoria do conhecimento e das capacidades cognitivas da alma humana.
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(Trecho do livro "Arqueologia dos Prazeres", de Fernando Santoro) <br<